Terça-feira, Julho 29, 2008

Quem é Pedro Páramo?

Acho que o facto da editora ser a mesma – a excelente Cavalo de Ferro – e deste modo os livros terem um aspecto (a cor das páginas, a letra) e uma organização semelhante, nas primárias páginas de Juan Rulfo julguei estar regressado a Dino Buzzati. Talvez ainda no mesmo verão e ainda na mesma praia. Regressado mais por conveniência do que por saudade. É preciso fazer alguns quilómetros para encontrar uma praia descansada onde se possa ler, claro, depois volta-se a Lisboa lixado. O realismo mágico de Rulfo é muito parecido com o de Buzzati apesar de um ser mexicano e o outro italiano, o que para o caso não significa nada. Buzzati é único no panorama europeu. É o tipo de livros que são potenciados por serem lidos ao ar livre, com tempo, e com muitas paragens pelo meio. As paragens ajudam a perder a «lucidez» e a colocar em primeiro plano um quotidiano que caminha sem obedecer a regras de vivos e de mortos. Rulfo, em Pedro Páramo, habita um espaço separado, abandonado, onde a natureza, muito sentida no texto, é o elemento que parece conferir vida às personagens. O livro é pequeno e percebe-se depressa que a experiência vai ser poucas vezes repetida noutros autores. As paragens no final dos diálogos ajudam a perder a «lucidez». Diferente daquela coisa que se elogia, por se achar boa a concentração que não descola para o lado (e por isso não chega a envolver-nos a nós ao ponto de quase trazer insónia): «ler de um fôlego».

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home