Quinta-feira, Julho 16, 2009

Apetece-me destacar

Mau produto

Foto via Portugal dos Pequeninos.
Fazer marketing para partidos políticos é um trabalho ingrato. Porque normalmente o público-alvo, os eleitores, deviam conhecer de ginjeira «o produto». Este cartaz resulta-me desagradável, em primeiro lugar, porque não gosto da boca de Sócrates. Dá ideia que faz um esforço importante para manter os lábios unidos. Como se a avó lhe quisesse dar a última colher de sopa ou como se assistíssemos a uma diferença de entusiasmos entre dois homens, um deles massajando-se continuamente e obtendo como única resposta aquela boca. A coincidência de vontades é tão mais bonita. Também não gosto da rapariga da esquerda, que me lembra «a célebre» da OK-Teleseguro, ajeitando um sorriso fresco numa cara meio acabada. E temos o admirável líder rodeado de mulheres. Significará um ensaio de modernismo, encarado no pior dos casos como inócuo, e não, como um aproveitamento e continuação de cliché. A «indirecta» com as cores da bandeira nacional é outra sensaboria. A bandeira nacional é como a Pamela Anderson, ao contrário do que podem fazer querer não dá pica nenhuma. Não se vive do passado. De qualquer maneira suponho que este cartaz figurará nos melhores esforços de marketing político. O cartaz de um «grande líder», o único disponível, o homem imperfeito e que «admite o erro», embora numa área que ninguém liga pevide escolhida precisamente para demonstrar que ele «está atento», e que leva o fardo de fazer «avançar Portugal». É certo que do vazio humano se consegue criar obras-primas, não são precisas referências anteriores, mas isso é só na literatura. O resto, como dizia o outro, é a vida. Na sua pobreza e sem arte nenhuma.

Cortar à faca

O filho do carniceiro é director nacional de recrutamento e formação. Ele ajudava o pai aos Sábados de manhã. É um individualista. Diz, com naturalidade, que ainda está a aprender a trabalhar em equipa. Não percebe os métodos que administram «auto-estima», como se pudesse ser uma injecção intravenosa, e prefere o realismo ao optimismo. Apesar dos 47 anos às vezes diz que tem medo, outras vezes dores de estômago. Não sabe o que é a «neutralidade benevolente», a postura mais acertada para o fingimento não ser ostensivo.
Almoçamos. O segundo prato é paleta de cerdo com batatas assadas (e muito molho). O filho do carniceiro pega na faca e no garfo e corta o primeiro pedaço de carne. Depois deve abater-se alguma lembrança. Abandona de imediato a faca (suja de molho), perto do meu copo, e come o resto da refeição só com o garfo. Não me consigo dar conta de como consegue comer só com o garfo mas é o primeiro a acabar. A posição que ocupa obriga-o a fazer mais cedências do que aquelas que desejaria. Conta-me o quanto o pai se equivocava (com excessiva ilusão e esperança) quando lhe recordava sempre o mesmo conselho: «se estiveres atento não terás nunca que viajar no vagão do gado bravo».

Terça-feira, Julho 14, 2009

Estudo incessante do pior

A facilidade e a ligeireza com que se escreve «alma» em vez de «lama».

Sábado, Julho 11, 2009

O grande sonho do paraíso

Paris, Texas
É uma sorte quando, não estando com os copos, vejo a dobrar. Encontro muitas semelhanças entre os estilos de Sam Shepard e Raymond Carver, actualmente o meu escritor para a praia.

Os porreiros

O novo programa de Pacheco Pereira, como era de esperar e conhecendo «o meio», irritou muita gente. Os insultos e as tentativas de ridicularização só revelam a ignorância de quem quer ganhar pontos na incansável tarefa de hacer la pelota. A Marmeleira, as referências à idade, a acusação de «narcisismo» e de «personalidade» de quem provavelmente dela abdicou para se mostrar melhor intérprete dos tempos «avançados» em que vive. Claro, com Pacheco não vão a lado nenhum. Há sempre muita gente à espera que caia qualquer coisinha do céu. Para mim, ainda antes dessa passagem da utopia à fantasia que foi o BE, Pacheco Pereira foi o primeiro político «sem gravata». Começei por encará-lo como um «rebelde», um pensador independente e alguém que olhava o país (e o PSD) através de uma reflexão própria. Um homem com vontade de debate inteligente. Essas características, no meio viciado e estupidamente optimisma que Sócrates impinge, sobressaem. Admiro Pacheco para além da mera superficialidade que é concordar ou discordar. A experiência ensinou-me a levar em consideração os homens isolados, com uma voz que não se justifica apenas por fazer parte de um grupo ou apenas isso cobiçar. Pacheco é um historiador incansável. Proprietário de uma coleção notável de documentos sobre os últimos cinquenta anos e de uma biblioteca imensa que disponibiliza para consulta. Da última vez que estive em Portugal, numa entrevista, li que Pacheco por vezes dormia literalmente entre livros. Não se trata de entronizar ninguém. Com tantos merdas disponíveis e com tanta mediocridade, trata-se de não ter vontade nenhuma de ridicularizar Pacheco. Ainda que isso me possa fazer – também a mim – menos simpático.

Segunda-feira, Julho 06, 2009

O fenómeno português

Hoje a televisão de Zapatero passou à hora do jantar a apresentação de um jogador de futebol aos adeptos. Coincide com uma espécie de orgulho português. Entrou-me pela casa dentro o Cristiano Ronaldo (durante largos minutos), o Eusébio, bandeiras portuguesas e, como cereja cristalizada em cima deste pão-de-ló muito seco, a música «à minha maneira» dos Xutos e Pontapés. Foi estranho e felizmente foi só hoje. Terá ficado o Santiago Bernabeu amaldiçoado para toda a época? É possível.

Troca de favores

O tema da «troca de favores», baseado numa noção de rede, é muito amplo. É uma nebulosa cheia de afinidades e conexões. E pode ter muitos campos de aplicação e numerosos matizes. Podemos começar na simples e inocente boa educação «muito agradecida» e esbarrar na ética. A troca de favores pode ser meramente pontual, mas não menos prazenteira. Por exemplo, quando um casal de meia-idade com imaginação está, por assim dizer, aborrecido. Ou como entre amigos ou colegas de trabalho ou vizinhos: duas velhinhas que trocam ingredientes para o almoço. Dois bloggers que devolvem links. A troca de favores pode ser uma simples correspondente simpatia, não sendo vista como um favor em si. Também pode ser mal interpretada ou mal usada. E começamos a entrar no campo da lei.
Eu lia uma revista dedicada à vida nas aldeias onde se propunha um paralelismo entre a organização feudal dos núcleos rurais no inicio do século XX, avançando por uma espécie de desculpabilização e revisionismo do caciquismo como «forma antiga» de troca de favores, necessária e protectora do funcionamento da comunidade, culminando no funcionamento actual dos aparelhos partidários. E depois de tudo isto, embora sem necessidade de tudo isto, suspeito quando se diz de alguém que «é espectacular e dele vamos ouvir falar muito». Pudera. Quem ama não dorme.

Domingo, Julho 05, 2009

De um manual que li (enquanto dormia)

«…atribuía o facto aos filmes em que as mulheres falavam só com os lábios, conseguindo dissociar a voz de qualquer origem interior, mas fazendo destacar, precisamente, os lábios e bem assim, outras partes do corpo. É possível que isto não se perceba. Mas pensar nos altifalantes das estações de comboios talvez ajude. Ouve-se uma voz, útil, mas condenada a um número limitado de informações efémeras, e ademais, um discurso riscado, lido do papel, ou mesmo gravado e programado para passar a determinadas horas. Quando se aproxima tal comboio, debitas isto, quando se aproxima outro, debitas aquilo. Um para norte e outro para sul. Há composições que seguem viagem sem parar. Por motivos de segurança também devem ser narradas. Renova a informação com maior frequência quando existirem atrasos – somos uma companhia desenvolvida. A pessoa que está todo o dia programada vai ficar a saber de cor o que tem que fazer e, a menos que esteja preocupada com algum acontecimento pessoal, vai fazê-lo cada vez melhor. À noite, quando se seguir uma fase do ciclo que, surpresa, não é previsível como as outras conseguirá captar a atenção para o que quiser. Os lábios estão intimamente relacionados com as pernas…»

Sábado, Julho 04, 2009

Balthus

Golden Days, 1944-45

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Rol de cornudos

Depois de uma semana de trabalho sem sequer mirar os media portugueses nada como chegar a casa, depois das tapas do costume, e inteirar-me das notícias. É relaxante. E quase picaresco. Maria João Pires toma a decisão – bem portuguesa – de renunciar à nacionalidade. É uma espécie de paradoxo. Uma no cravo e outra na ferradura. Ao mesmo tempo que tenta simbolizar uma genuína aversão para com o nosso querido país comporta-se verdadeiramente como uma portuguesa dos sete costados. O verdadeiro português renuncia a ser português. Com papel e tudo. Depois Manuel Pinho. O picaresco continua. Devemos ter presente que apesar de tudo existe alguma igualdade em Portugal. Atingiu-se um equilíbrio tal na sociedade que chegámos ao ponto de «conseguir» uma criatura como Lino, o visionário da «West Coast», embora sem ter pensada uma única ideia para o turismo e limitando-se a «apanhar as canas» de cada vez que alguma empresa privada criava postos de trabalho, como encarregado de estimular a economia. Vou matutando em que categoria inscreveria Don Camilo José Cela a Pinho, que por estes dias terá sido um «grande ministro». Menos um.

Terça-feira, Junho 30, 2009

Complexo de Épico

Faço coisas estranhas desde há muito. Decidia, como por obra e graça do espírito santo: «agora vou ler um gajo espanhol.» Uma vez, única, escolhi Javier Marías. Depois de ler Todas as Almas fica-se com vontade de reescrever o livro. Como quem manda: «agora, como se fosses Buster Keaton, mostra que odeias.» Prova-se que Marías não tem veia de novelista, quer dizer, não tem sangue de escritor. Num artigo para o El País entregou-se à sempre bonita tarefa de contar os feriados na comunidade de Madrid e relacioná-los com a falta de produtividade «em tempos de crise». É tão triste ver um escritor armado em burocrata. Não li o artigo, mas provavelmente até fez uma comparação com o norte da Europa. Não seria preciso. Bastava fazer uma comparação com o norte de Espanha. Será que só quis meter com a Esperanza Aguirre? É sempre encantador meter-se com pessoas loucas. Se foi esse o motivo ainda o desculpo, caso contrário, como trovaria Tom Zé: «vai ser sério assim no inferno

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Matéria líquida

Este fim-de-semana haverá de novo oportunidade para rever as lições. Garanto que regressa com o mesmo metro e oitenta.

Denegação

J.M. Coetzee é um autor insuspeito. Li Desgraça por apontar o nome do livro, ainda antes de ter ganho o Booker, e mais tarde por desarrumação ter encontrado a nota. Ficou-me o distanciamento em relação à temática – a África do Sul. Mas gostei da escrita incorruptível. É por isso que sigo, sempre com renovado interesse, os seus ensaios e críticas. Finalmente adquiri Inner Workings: Literary Essays que retoma muitos dos «meus» escritores. Beckett, Musil, os dois «Roth’s», Bellow, Svevo, entre outros sacanas. E claro, Walser. Sobre o escritor suíço, Coetzee faz um retrato biográfico directo e diferente da magnífica «narrativa do pensamento» a que estou habituado com Vila-Matas (que é provavelmente o escritor que mais refere Walser). Não é preciso romancear a vida do escritor dos Microgramas ou emprestar-lhe uma angústia previamente esboçada. Ele é o supremo anti-herói. Mas isso somos nós que dizemos confortavelmente instalados no presente e com uma vontade de perdição que é mero e insultuoso desenjoo. Para o homem Walser não era assim. Li o ensaio sobre Walser ainda sentado na Fnac. A maior parte dos dados biográficos já os conhecia mas o que se segue, se o soube alguma vez, devo ter recorrido ao velho mecanismo psicanalítico da «denegação». Não evitei a gargalhada misturada com lágrimas e aperto no peito. Coetzee citava Walser sobre a tentativa frustrada de acabar com a vida: «Nem sequer pude fazer uma forca em condições.»

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Hogueras

O San Juan na Coruña, «a noite das meigas», pelos olhos do Firefly, que são outras duas fogueiras com muito lume.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Música para camaleões (4)

Data: 23 de Maio de 1999
Cenário: Largo da Graça, Lisboa.

SF: Pode dar-me um autógrafo?
JCM: (é mais baixo que eu, veste uma gabardina preta, óculos de sol, tenta esquivar-se.) Não dou autógrafos.
SF: Uma recordação sua.
JCM: Não sou nenhuma ave rara, deixa-me passar.
SF: Está surpreendido por tê-lo reconhecido? Repare nesta mulher que passou. Julga que é um mendigo.
JCM: (afasta-se, atravessa a rua, enquanto se vira para mim.) Vou pedir esmola para outro lado.
SF: (alcanço-o no outro lado da rua, ao lado do Quartel.) Peço-lhe por favor, a seguir tenho aulas.
JCM: Não chegues atrasado, a sabedoria oficial é uma dádiva.
SF: De momento opto pela informal, é verdade que na Figueira da Foz levantava a saia às peixeiras?
JCM: Às peixeiras? O ensino não era misto. Passei os primeiros anos a espreitar, recusei a asneira de pensar que o doce mundo me podia suavizar.
SF: Isso não se faz, mas dizer «sim» é grácil…
JCM: Não rompi um único cu.
SF: Agora não sei, mas a Figueira dava uma ilusão de maturidade, a falta de calor misturada com o Casino, a facilidade com que se encontravam conhecidos, a meia dúzia de ruas que desembocavam no picadeiro. Um ambiente metade lúbrico e metade provinciano. E depois Londres, mas as primeiras impressões é que contam grande parte da história, a menos que se seja um aldrabão ou se almeje fugir do núcleo duro que nos formou, foi assim?
JCM: Vem, vamos ao miradouro. (Chegamos.) Olha que bonita a cidade, tanta luz.
SF: Tão branca que cega. Não me venha com essa. De certeza que prefere as sombras do jardim do Príncipe Real. Ou da praça das Flores. Alguma vez jogou à bola na rua?
JCM: Nunca vivi dentro de casa.
SF: Está sempre a desconversar.
JCM: Querias sermões?
SF: Queria aprender alguma coisa. Até a professora de português. Passa as aulas a contar histórias pessoais, ligeiramente patéticas e ligeiramente eróticas. Mas ela deve considerá-las agradáveis recordações de infância. Falta-lhe qualquer coisa.
JCM: Escreve-lhe cartas de amor, anónimas.
SF: Resolve alguma coisa?
JCM: É pândego. Não queiras salvar nada nem ninguém, perdes-te na tentativa.
SF: Sabe, provavelmente não terei hipótese conhecer ninguém tão nobre como o João.
JCM: E o menino a dar-lhe. Eu que gosto do arroz devidamente malandrinho.
SF: Bem sei. E o talho era na rua dos remédios, não era? Estou mesmo a vê-lo. A pedir sugestões às vendedoras da Rua de São Pedro. Moro lá perto. Quando era pequeno odiava o cheiro a peixe.
JCM: É por esse tipo de cuidados que agora já não deixam vender peixe na rua. Está cada vez mais difícil fazer filmes.
SF: Ninguém filma em Lisboa. Só anúncios.
JCM: (encolhe os ombros) São muito curtos e sem história. Prefiro o cabelo solto a um champô anti-caspa.
SF: E também prefere rituais. Ritual à mesa, ritual na cama, gosta de dançar? A oferenda do próprio corpo. Sabe o que mais me lixa? Que o vejam como uma curiosidade excêntrica. Que estejam tão fodidos que sejam incapazes de acreditar na insubmissão genuína. Em alguém que se atire à água mesmo não sabendo nadar. Merda de progressistas. Gostava que tivesse mesmo roubado dinheiro ao Estado para o empregar numa obra tão alheia ao poder e à normalização.
JCM: «Devo sofrear o riso ou atear a gargalhada?» Sou pouco monocórdico.
SF: (silêncio.)
JCM: (silêncio.)
SF: Sim, deixemos as formas clássicas do bom e do mau. Eu encontro harmonia nos rituais. Walser via harmonia em todo o lado e não precisava esforçar-se. Acho que sou influenciável.
JCM: A moral constrói-se no cimo de uma montanha de proibições.
SF: Walser não diria uma coisa dessas…
JCM: Dizes tu.
SF: Imagino-o numa tarde de calor Lisboeta, em casa, com as vozes da rua a chegarem à sala pela janela totalmente aberta. Isso poupa-o a ter que falar sozinho.
JCM: Andas a ver muitos filmes meus. Agradeço-te, por teres pago a entrada.
SF: Acredito que seja realmente inocente, para mal dos seus pecados. A sua fraca figura não está de acordo com a coragem que demonstra. É um homem muito bonito. Deixe-me acompanhá-lo até casa. Quero saber onde mora e quero ser-lhe útil. Não o deixo morrer; que a minha juventude tenha alguma utilidade.

Terça-feira, Junho 23, 2009

Casa com ria em baixo (11)

Ao vivo, quase em casa, com a ria ao lado.

Domingo, Junho 21, 2009

Diego Rivera

Retrato de mujer, 1944.
Quando encontrei esta pintura num livro de arte, nas horas seguintes, quase não garanti nenhum comportamento adequado. Fiquei, como não se costuma dizer, «enamorado».
Em princípio, mais valia discorrer sobre a palidez, essa falta de colorido tão sensual, a palidez. Quantas vezes não se apaixonaram já pela palidez? Pela falta de sol? Pela ilusão de transparência? Pela falta de alento? Pela falta de ar? Pois, para contrariar esse tantas vezes enganador «toque misterioso» hoje foi um longo e evidente dia de verão.

Sábado, Junho 20, 2009

Casanova

Durante algum tempo mantive contacto com um «Casanova». Inspirava-se no antigo «poeta». Embora com as actualizações contemporâneas que o faziam menos novelesco. Não aspirava sequer a um jogador, posto não arriscar nada. A sua vida era totalmente terrena. Sentia-se nativo em qualquer parte. Mas visto de fora fazia lembrar um pária. Para que fiquem claras as minhas intenções, nunca desejei deitar-me com ele.
Começou pelo princípio e pela proximidade. Pelas muito jovens. Meia dúzia de palavras diferentes bastavam para captar a atenção. Juntava algumas alusões que, embora apresentadas com gala, na verdade não o afectavam mais que o ricochete no ouvido. Usava-as como um sedutor bronzeado de verão. Às muito jovens apelidava-as de «bicicletas de manutenção», dizia-me, mas também, suspeitava eu que conheci algumas, porque eram «estáticas», ainda muito ausentes de vida, embora coleccionadoras de todas as representações urbanas. «Casanova» amadurecia, ou acumulava experiência, e aumentava as possibilidades. Aproveitava-se dos conhecimentos superficiais para diminuir os «problemas de consciência» – que me comentava entre risos, às vezes forçados. O seu sentido de oportunidade parecia-me, a mim que tenho alguma dificuldade em acertar o tom, realmente invejável, mesmo que para isso usasse o exagero, como se estivesse realmente a discursar para alguém importante que, por imprevisto de última hora, não estava presente. Não alternava entre a má disposição e a boa disposição. Estava sempre bem disposto. E dentro desse mesmo pólo emocional, incrivelmente, conseguia fazer variar o nível de bom humor. O facto de não se engasgar transmitia uma ilusão de verdade que nunca questionei. Aquele temperamento era inato. A vida não lhe havia ensinado nada. Tomava como dever moral enganar quem pedia ser enganado. Preferia lidar com os vaidosos, pela facilidade com que lhes percebia os pontos fracos.
Começou a particularizar e divertia-se com os «atractivos antropológicos» que encontrava numa ou noutra figura, contando-me histórias sem palco, que se passavam entre poucas paredes, mas que nos dedicávamos a explorar mais do que a boa educação aconselharia. Gabava-se cada vez que conseguia vergar uma daquelas mulheres que julgam que o ponto mais distante da sua evolução reside no desprezo pelo homem.
Chegou o dia que falhou. Algum do seu sucesso passava também pela boa forma que mantinha. Prolongada na imaginação e na intenção de criar uma memória física e emocional para cada caso. Queria manter várias portas abertas, para poder ter a liberdade de escolher consoante o capricho do momento. Outras vezes falharam. Culpou a crescente desordem emocional fomentada pelo seu «amor insubordinado». Aceitei acompanhá-lo às putas. Foi a última vez que estive com ele. Tentava-se que recuperasse alguns dos atributos selvagens que progressivamente haviam sido substituídos por uma sensibilidade peculiar, decorrente dos sucessivos envolvimentos.
A dona da casa chamou-me ao quarto. Encontrei-o tombado e a choramingar no colo de uma mulher de pernas cheias; fornecia-lhe, com gestos que ilustravam o quanto aquela cena não fazia parte da sua faina, os mesmos lenços que serviam para os homens vigorosos se limparem depois de terem cumprido a função que a ele era agora negada. Talvez o tempo folgazão se tivesse esgotado, como na combustão instantânea de um fósforo, e agora só lhe restasse viver às apalpadelas; a tropeçar e a coleccionar nódoas negras.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Tão bem que eu estive na praia

O blogger Galante quando pula a cerca do «normal e necessário» só diz chorradas. Para chatear um escriba do 5 Dias, diz que Kiarostami «fez-se cineasta abdicando de qualquer intervenção cívica». Uma coisa é o rapaz Galante gostar do activismo, da petição e dos movimentos (não me refiro aos movimentos de anca). Outra coisa é a arte. E o avanço artístico não tem que andar, precisamente, «de mãos dadas» com os «bons sentimentos». Não se trata de colocar a «arte acima de tudo». Trata-se de diferenciar entre «a obra» e o tratamento moralista de dados biográficos que têm um contexto particular, muito afastado do nosso. Como dizia Salinger: «ao escritor há que lê-lo, mas mais vale não conhecê-lo». Não me interessa o homem, tal como não me interessa muito a portada da Hola! (e às vezes até interessa porque costumo diferenciar e relativizar a importância de cada «fenómeno».) Qual é o valor de chamar «traidor e cobarde» a um cineasta verdadeiramente singular? Para além de que um dos últimos filmes do realizador, e esteve em exibição em Portugal, encaixa perfeitamente nesse empenho com a intervenção social: Ten, de 2002, baseia-se num dia de trabalho de uma mulher taxista que percorre as ruas de Teerão. Enquanto vai transportando as clientes os diálogos sucedem-se. O fio condutor, nunca melhor dito, é uma reflexão sobre o papel da mulher na sociedade iraniana. Coincidência ou não foi um dos filmes do autor que menos gostei. Mas lá está, tive a possibilidade de sair da sala a sentir-me moralmente mais «desperto» para com as agruras da vida num país islâmico.
Dou o benefício da dúvida: o post é tão insípido que coloco a possibilidade de o intuito ser, no fundo, fazer apologia à boa cereja da Gardunha. Porque o filme de Kiarostami, que refere esse fruto no título, chama-se «O sabor da cereja» e não «Tempo das cerejas», embora seja a fruta da época...

Torre de Hércules

Uma desolação

Seis anos. Encontramo-nos e ainda esperas que seja eu a tomar a iniciativa. Fico com a sensação que passaram umas horas. Gostas da minha companhia, mas nunca o dizes. Sentes que não interessas, que não acrescentas nada a ninguém. Fazes-me as perguntas que – julgas – podem dar-te as respostas que queres ouvir. Segues-me com o «arrojo» depositado no cão-guia. Dou-te atenção por piedade. Que dizer, fazes-me impressão. Tento perceber até onde pode ir o teu controlo, o teu medo disfarçado de cálculo. A tua censura mascarada de inteligência. O corpo consome-se como uma ruína deixada ao abandono; sentes na pele o que quer dizer recalcada.
Funcionavas a soldo das certezas absolutas. Os teus pais eram extraordinariamente forretas e conservadores. O minifúndio incrementa o sentimento de posse. Os cavalos do Gerês podiam safar-te. Ou muda-te para o Alentejo. Ainda não é tarde para seres alentejana. Já deves ter tido a tua «experiência», espero. Querias que me ajoelhasse só pelos teus olhos. Querias, mas não tiravas a armadura. Eu mantinha-me junto a ti, cada vez mais perto, mas era impossível alambazar-me. Passaria fome. Querias o meu abraço, a minha boca, desejavas a oportunidade de dizer muitas vezes «não» enquanto relaxavas o corpo. Que espécie de impostora. Querias sentir o conflito enquanto lubrificavas a cona. Interiorizavas o «dever» como se fosse teu desde pequenina, e desaparecias, parte do teatro, para me fazer acreditar na tua personalidade, aliás, escondida desde o primeiro diálogo.
Admito: julguei que podias ser diferente. Não apenas mais uma para fazer perder. Mas não merecias tanto. Acabaste por provar a punição das tuas próprias crenças «inabaláveis». Precisaste anos para avançar uma vírgula, no entanto, julgavas que me manipulavas conforme os teus «insondáveis tempos» que não eram mais que um retorno, não sei bem a que vazio.
A oportunidade não dura sempre e a beleza restante já não deixa margem para brincar às deusas. Tens umas olheiras feias; humanas, vês?

Música para camaleões (3)

Até à data a melhor leitura que fiz de Truman Capote. E Handcarved Coffins das melhores novelas que já li. As conversas entre Jake e TC vão ficar muito tempo retidas na minha imaginação. Uma nota lateral: apraz-me saber que Capote gostava de tequila.